Roberto Harari (org. Carlos Augusto M. Remor, Inezinha Brandão Lied, Tânia Mascarello)
Roberto Harari apresenta inéditas articulações a partir de sua clínica e de novos processamentos do ensino dos mestres, resultando numa reescritura que tem valor de novação.
Esta "coletânea de textos brasileiros" brinda os leitores reunindo textos inéditos ou se já publicados, difíceis de encontrar ou esgotados, despertando o interesse por sua atualidade. É assim, que o autor articula - entre várias temáticas - diferentes propostas para a questão título.
"Como ter acesso a este desejo que vem a ser, antes um lugar virtual, antes uma certa condição, o chamado desejo do analista? Aqui sem dúvida, estamos de acordo cóm um posicionamento formalmente impecável a respeito da formação do analista Qual é? - que o analista -começa por ser analisante".
O Psicanalista, o que é ISSO?
"[ ... ] o psicanalista-sinthoma, ao ser um plurônimo cUJas articulações o emparentam,
seja com o acróstico, seja com o acrônimo, dissolve seu nor:ne próprio tornando-o "legião" de modo inexorável É lógico: o psicanalista não é um semblante porque, qual personagem do Finnegans ... , muda de maneira contínua, adota novas constelações, novas configurações, atadas entre si de modo tênue - mas não precário
- pela consistência - fios, letras
- chamada sinthoma" Psicanálise pós-joyceana
Roberto Harari (org. Carlos Augusto M. Remor, Inezinha Brandão Lied, Tânia Mascarello)
No que se refere à mulher, o remédio para "ser não-toda" é uma a particular, primordial na maneira fêmea de falhar a relação sexual. Esse a é um filho in-mundo que faz as vezes de tampão para o "não-toda". Ela tem uma possibilidade de dirigir-se de modo desdobrado em relação a distintos aspectos da vida. Pode ser esposa, mãe, e ao mesmo tempo ser uma pessoa que trabalha, que tem uma carreira profissional. Essa, que é uma queixa habitual das analisantes, parece a colocação em ato da referência ao desdobramento feminino. A mulher é não-toda e, portanto, se desdobra.
No que diz respeito ao homem, Freud detectou a força do supereu masculino e isso não é um mérito, mas antes uma desgraça, se levamos em conta o que nos apresenta Lacan: o imperativo superegóico é "goza".
Lança um impossível, impossível de gozar todo o tempo e, a esse imperativo kantianamente categórico, a esse que diz "goza"! o sujeito, só pode responder "ouço", uma vez que aí há um jogo de palavras com o francês jouir, do qual se pode entender tanto o gozo, como o ouço. Goza, eu ouço: isso é tudo o que o sujeito pode fazer diante dessa terrível prerrogativa.
Revista Clinamen - Ano V, N° 3: O Psicanalista e a Cidade
Maiêutica Florianópolis Instituição Psicanalítica
A cidade em permanente movimento se transforma, se agita, se acalma, dorme, sonha, chora, ri, fala, grita e silencia. Gente anônima, que na vibração da vida, busca fazer-se um. O psicanalista in-mundo escuta seu sofrimento, seus sintomas, suas queixas, seus fracassos. Por entre ruas, avenidas, bifurcações e desvios, encontramos a subjetividade marcando os desencontros nossos de cada dia, pois Freud nos ensinou que a psicopatologia é cotidiana, mal-estar próprio da cultura. No movimento contínuo entre pulsão de vida e pulsão de morte, a cidade deixa de ser um conceito geográfico e passa a expressar o drama do ser falante, sempre desterrado.
O Falo é aqui esclarecido por sua função. Na doutrina freudiana, o falo não é uma fantasia, caso se deva entender por isso um efeito imaginário. Tampouco é, como tal, um objeto (parcial, interno, bom, mau etc.). Na medida em que esse termo tende a prezar a realidade implicada numa relação. E é menos ainda órgão, pênis ou clitóris, que ele simboliza. E não foi sem razão que Freud extraiu-lhe a referência do simulacro que ele era para os antigos.
Pois o falo é um significante, um significante cuja função, na economia intra-subjetiva da análise, levanta, quem sabe, o véu daquela que ele mantinha envolta em mistérios. Pois ele é o significante destinado a designar, em seu conjunto, os efeitos de significado, na medida em que o significante os condiciona por sua presença de significante.
“[...] Publicar implica uma prática. mediante a qual o autor se descompleta ao deixar cair o seu produto, o que foi factível pela sustentação - também descompletante - de 'alguns outros' [...]”.
“[...] Em todos os textos, e afirmadas suas diferenças, poder-se-á perceber o mesmo alento comum, em aras de precisar e de ampliar o alcance fecundo obtenível por meio da cura psicanalítica, concebida com base nos ensinos de Freud e de Lacan. Isto justifica perfeitamente [...] o surgirnento desta nova revista psicanalítica, a qual já, desde seu título ‘lucreciano’, assinala como proposta consistente nesse mínimo desvio, nesse clinamen, que dá lugar à invenção antes que a redundância [...]”
Como se chama James Joyce? A partir do Seminário Le Sinthome de J. Lacan
Roberto Harari
Recentemente traduzido na França e nos EUA, este livro do Psicana1ista argentino
Roberto Harari, autor de vasta obra teórica, propõe uma leitura rigorosa, criativa e didática do Seminário 23, Le Sinthome. Neste, Lacan produziu seu último e mais notável avanço clínico-conceitual, para o qual valeu-se das contribuições do genial escritor irlandês James Joyce.
Com habilidade no manejo dos conceitos e da escritura, Harari mantém um diálogo intenso e crítico com as proposições teóricas lacanianas, discutindo-as e articulando-as com diversos campos do saber.
Roberto Harari contempla integralmente as "linhas-força" principais que vertebram o ensino do Seminário 10 de Jacques Lacan, A Angústia, e oferece não uma alternativa ao Seminário mas uma forma de conduzir o leitor até ele.
Além disso, configura uma das melhores apresentações de "temas-chaves" do ensino lacaniano, referentes ao modo com que ele incide sobre o tratamento analítico, seja subvertendo-o com fecundidade, seja ampliando seu alcance.
Se a termodinâmica de Boltzmann influenciou o pensamento de Freud, os conceitos das teorias do caos e das catástrofes, oriundos das ciências físicas, são tomados por Lacan no período que Roberto Harari denomina de o último Lacan. Então, a partir da intimidade com a prática da psicanálise, o autor realiza neste livro um movimento original de captura das idéias da dissipação e acompanha o ensino lacaniano a partir do Seminário 23, postulando que o final do tratamento não se dá por uma normatização, mas pela conquista da invenção através da nominação. Com tiradas críticas este livro também é um pensamento sobre a liberdade.
O que acontece no ato analítico? A experiência da psicanálise
Roberto Harari
O sujeito advertido, portanto, se gera em análise. 'Como acontece isso? No parecer de LACAN: "Só é julgável" - sempre em alusão ao sujeito advertido - "em referência a um ato que se trata de construir como aquele onde, reiterando-se, a castração se instaura como passagem ao ato [...]". Ou seja: ao reiterar-se a castração, o ato se instaura como passagem ao ato, o que, pelo até aqui exposto, não cabe senão qualificar como esclarecido. Mas o que nos permite propor um novo quadrângulo é esta continuação: ''[...] do mesmo modo que seu complemento, o trabalho psicanalítico mesmo, se reitera, anulando-se, como sublimação". A reiteração, segundo a operatória própria do grupo de Klein, não ratifica "o mesmo"; efetivamente, o retorno não liquida a operação voltando à "folha em branco", pois gera uma circunstância novadora, refundadora. Da mesma maneira, como dissemos, a castração se afirma ao reiterar-se anulando-se na passagem ao ato. É imprescindível, para compreender qualquer intelecção, tolerar este paradoxo: reafirma-se e anula-se, gerando, instaurando, uma nova circunstância. Por isso, o trabalho analítico reafirma-se, reitera-se e anula-se, na sublimação.
Intensión freudiana: como locución que el propio libro explica, me ha servido en tanto fecundo eje rector que ordena una serie de textos cuya aparente heterogeneidad queda salvada por un propósito común. ¿Cuál? El de trabajar, aquí, la obra impar de Freud -inexorablemente: desde, y con, Lacan- a los fines de procurar avanzar en registros, en temas, en problemáticas, cuya indagatoria requiere sea un enfoque que no reproduzca lo idéntico, sea el desbroce de un terreno aún virginal. Así, diferentes ocasiones y contextos no han sido más que causas de los desarrollos agrupados, los que van, por ejemplo, desde los historiales clínicos a la psicopatología, desde la técnica al presocratismo, desde el "peine invertido" a lo inconsciente, y desde la evolución del yo hasta el sentido actual del rótulo ''freudiano''.
Una vez más, la apelación a la rigurosidad deductiva y a las disciplinas conexas-mitología, filosofía, crítica literaria, historia, microsociología, para indicar las principales- señaliza mi modalidad de procesamiento. Ratifico, de tal forma, mi convicción en el sentido de que mucho de lo que aún puede esperarse del psicoanálisis como práctica, radica en la extensión de su perímetro conceptual mediante la apropiación selectiva del herramental afín, cincelando en intensión las nociones de que ya creemos disponer para la efectuación de nuestro abordaje clínico.
En fin, me atrevo a suponer que el goce de la escritura que este libro me produjo cada vez que una luz se (le) encendía, es capaz de provocar un goce homólogo en todos aquellos lectores a quienes la problemática encarada interpela, interroga, subvierte. O incluso -¿por qué no?- apasiona.
Entre Lingüística & Psicanálise O real como causalidade da língua em Saussure
Maurício Eugênio Maliska
Este livro é uma tentativa de apresentar uma leitura do Curso de Lingüística Geral permeada sobretudo pelo conceito de real em Psicanálise. Trata-se de ler o tema da origem, através da causalidade - presente de forma subentendida nos conceitos de arbitrariedade, mutabilidade, sincronia e valor, vislumbrando a relação que mantêm com o real. Para isso, utilizamos como texto-base a edição publicada por Bally e Sechehaye, bem como textos de Freud e Lacan. Nossa leitura aponta para o real presente no bojo da causalidade subentendida nos conceitos já citados, chamando a atenção para a relação que mantêm com aquilo que é da ordem do impossível, com aquilo que resiste a uma inscrição no campo simbólico, com o real que não cessa de não se inscrever. Da arbitrariedade à teoria do valor, o real está presente na causalidade da língua em Saussure.